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Miguel Angelo
Pandini
A experiência que passo a narrar
aconteceu por acaso em fins de 1983, em minha casa ,
em Colatina - ES, época em que eu ainda dispunha
de conhecimentos mais modestos sobre aquarismo.
Adquiri, em setembro daquele ano, um
casal de Colisa lalia, empolgado com sua beleza e pela
curiosidade que me despertou um livro que citava seu
processo de reprodução: "ninho de
bolhas com pedaços de plantas, feito pelo macho
... o acasalamento idêntico ao do Betta splendes
... o macho apanhando no fundo do aquário os
ovos para colocá-los no ninho ... etc."
Após concluída a experiência, porém,
tirei conclusões suficientes para contestar algumas
informações dos autores que havia lido
na época. A maioria deles, por comodidade ou
para abreviar, citava a reprodução da
Colisa como sendo idêntica à do peixe-de-briga,
apenas com a pequena diferença de que "adicionava
pedaços de plantas ao ninho de espuma".
No
mês de dezembro de 1983, próximo do Natal,
comprei algumas mudas de samambaia d'água (Ceratopteris
thalictroides), muito viçosas que haviam acabado
de chegar na cidade, melhorando a vegetação
aquática de meu aquário comunitário,
que consistia, até então, de cabombas,
valisnérias, sagitárias e elódeas.
Tudo continuou normal como nos meses anteriores, exceto
o comportamento do casal de Colisa lalia, que passou
a destruir as folhas mais novas e os brotos das plantas
recém chegadas, para a minha decepção.
Poucos dias depois, para preservar
minhas samambaias, retirei o casal "terrorista"
para um outro aquário já pronto há
algum tempo. Consistia num pequeno aquário de
40x28x28 cm, plantado com Cabomba aquatica, Valisnéria
spiralis, Sagittaria microfolia, e uma quantidade imensa
de ramos de Ceratophyllum demersum (cabelo-de-urso).
Eu o havia preparado para testar o desenvolvimento das
espécies citadas, quando em ambiente alcalino
(pH 7.6) e expostas ao excesso de luz, inclusive algumas
horas de luz solar direta. Três semanas após
o plantio e com a mesma água no aquário,
houve crescimento exagerado das cabelo-de-urso, fechando
quase todos os espaços da superfície,
além da formação de grande quantidade
de algas verdes, sob a forma de grandes feixes de finíssimos
fios ligados às plantas, vidros e cascalho. Folhas
soltas e pedaços de vegetais completavam o cenário,
que mais parecia um pedaço de "brejo"
do que aquário. A temperatura naqueles dias era
insuportavelmente quente (quem conhece Colatina, sabe
do que estou falando), e a água chegava aos 30ºC
durante o dia. O dito aquário não dispunha
de qualquer filtro ou aquecedor, nem possuía
iluminação artificial.
E foi nestas condições
que introduzi meu casal de Colisa no tal aquário,
por volta das 14 horas de um dia muito quente. Como
os livros previam alguns dias para se adaptarem ao ambiente
para só então partir para a procriação,
estranhei , no dia seguinte, pela manhã, o comportamento
dos dois, quando fui alimentá-los. O tom azul-piscina
normalmente encontrado nos opérculos e ventre
do macho havia se tornado um azul brilhante intenso,
desde a boca, opérculos e ventre, indo até
a metade da nadadeira anal, com as partes em vermelho
também muito mais vivas. Todas as nadadeiras
estavam abertas ao máximo e seu comportamento
era semelhante ao de um peixe muito assustado. A fêmea,
sem ter suas cores alteradas, parecia temê-lo
e mantinha-se à distância.
Passei a manhã toda observando
a estranha atividade: com golpes e puxões fortes
arrancava grandes farrapos de algas verdes e carregava
para o canto traseiro direito do aquário, como
que amarrando três ramos de cabomba pelas pontas,
parecendo formar na superfície da água
uma espécie de triângulo equilátero
com uns 10 cm de lado. Depositou vários feixes
verdes em seguida, cobrindo o espaço interno
do "triângulo" como uma aranha tecendo
sua teia. Passou, então, a borrifar debaixo de
sua "teia" bolhas de ar que apanhava seguidamente
ao lado, começando a dar-lhe o aspecto de ninho.
Quando julgava suficiente a quantidade de bolhas, partia
para as plantas vizinhas, principalmente as cabelo-de-urso
carregadas de algas verdes e as "limpava",
prendendo as pontas dos finíssimos feixes às
bordas de um círculo que já se desenhava
em múltiplas camadas. Deu preferência à
limpeza do espaço sob o ninho, ou seja, formou
uma espécie de cilindro vazio, do ninho, na superfície,
até o cascalho, no fundo.
À medida que o ninho aumentava
de diâmetro e espessura, além das bolhas
maiores que soltava pela boca, o macho passou a desprender
das guelras, através de rápidas contrações
dos opérculos, nuvens de pequeninas bolhas, quase
microscópicas, que nem mesmo as melhores pedras
porosas poderiam formar. Até hoje não
encontrei uma explicação para tal fato,
uma vez que as bolhas maiores, não só
em tamanho mas também em quantidade, eram mais
do que suficientes para manter o ninho flutuando.
Por volta das duas da tarde, ou seja,
24 horas após terem sido colocados no aquário,
com o ninho praticamente pronto (mais de 10 cm de diâmetro
por 2 cm de espessura), os peixes iniciaram o acasalamento,
um espetáculo bonito, que valeu a pena observar.
O macho dirigiu-se à fêmea e com "beliscões"
e empurrões levou-a para debaixo do ninho, enlaçando-a
com o corpo, que se dobrava apertando suavemente como
uma pinça, expulsando, assim, os ovos a serem
fecundados. A posição dos dois no momento
do "abraço" era mais ou menos esta:
a fêmea mantinha-se passiva, ligeiramente inclinada
para o lado, enquanto que o macho formava um "U"
ao redor de seu ventre, o que certamente propiciava
a junção dos orifícios genitais.
Os ovos, ao saírem do corpo da fêmea, eram,
assim, imediatamente fecundados e fixados na face inferior
do ninho, uma vez que flutuavam naturalmente. Depois
de cada "abraço" o macho expulsava
sua parceira para longe do ninho e novamente colocava
fiapos de algas verdes, formando camadas protetoras
para os ovos, borrifando, a seguir, bolhas grandes e
as misteriosas nuvens de microbolhas.

Tais operações foram
repetidas em intervalos regulares de alguns minutos,
até por volta das quatro horas da tarde. Depois
disso, o macho não só não mais
procurou sua parceira, como impediu-a de aproximar-se,
com movimentos bruscos e ameaçadores, enquanto
permanecia sob o ninho, ora borrifando-o com mais ar,
ora retocando suas fibras.
Nos dois dias que se seguiram, nada
de anormal aconteceu, permanecendo o quadro acima descrito.
No terceiro dia, logo pela manhã, já foi
possível observar pequeninos filamentos transparentes,
com dois pontinhos escuros numa das extremidades, deslocando-se
na superfície inferior do ninho e nas proximidades,
e que eram imediatamente reintegrados ao ninho pelo
macho quando se afastavam. Horas depois, retirei a fêmea
para o aquário principal, para evitar uma "tragédia",
visto que o macho tornara-se ainda mais antipático
à sua presença, e cada vez mais ameaçador.
Cerca de uma semana depois, retirei-o também
para o outro aquário, deixando os alevinos livres:
eram cerca de 200, que passaram, então, a nadar
por todas as partes do aquário. Infelizmente,
naquela época eu não soube como alimentá-los,
e cerca de um mês após o nascimento, só
restava pouco mais de uma dezena deles. Três chegaram
à fase adulta, meses depois (um macho e duas
fêmeas).
Depois de tal experiência, pude
então estabelecer diferenças com relação
à reprodução do Betta splendes,
e fazer algumas observações importantes:
1) - A Colisa lalia não utilizou
espuma de saliva e nem pedaços de plantas para
confeccionar o ninho. Usou somente algas verdes e bolhas
de ar em dois tamanhos. Provavelmente, em alguns casos,
na falta de material para nidificar adequadamente, o
macho improvisa seu ninho com o que ele tiver disponível.
Vale ressaltar que, no caso citado, havia também
pedaços de plantas e folhas soltas no aquário,
mas ele escolheu os feixes de algas verdes, o que, com
certeza, também usa nos pântanos da Índia,
seu habitat natural.
2) - Durante a construção
do ninho e após a postura, a Colisa, ao contrário
do Betta, não agrediu nem maltratou sua fêmea.
Apenas cuidou para que ela não se aproximasse
do ninho, o que certamente também teria feito
com qualquer peixe de outra espécie que por acaso
fosse colocado no aquário de reprodução.
3) - O macho não apanhou ovos
no fundo do aquário, como no caso do peixe-de-briga
, e nem houve necessidade de se reduzir a altura da
coluna d'água para diminuir a possível
pressão sobre os ovos e alevinos. A maioria dos
filhotes morreu muito tempo depois do nascimento, por
falta de alimentação adequada.
Depois disso tudo, vale afirmar aos
companheiros aquaristas que a reprodução
de Betta splendes e de Colisa lalia, quando observada
de maneira mais detalhada, tem pouca coisa em comum,
além do ninho feito pelo macho. No mais, tudo
é diferente. É só conferir!
Este é um texto de Miguel Angelo Pandini,
colaborador da "Aquarismo Doce"
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