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Ronaldo
Hilgert
Alguns aquaristas tem um grande temor
a respeito da reprodução de peixes ovíparos.
Suas primeiras tentativas geralmente são terríveis,
e antes disto já ouviram falar de problemas neste
tipo de reprodução. Aqui descrevo o meu
método, algumas dicas e relatos de experiências
próprias.
Porque
o Trichogaster leeri?
De todos os Anabantídeos, o leeri é o
mais pacífico (diferente de seus primos bettas)
e muito mais elegante que os outros Tricogaster. A observação
de seu nado nos revela seu charme, com movimentos suaves
parece sempre estar a vontade mesmo na companhia de
peixes maiores. Convive bem até com o Cichlasoma
portalegrense, que é um ciclídeo de médio
porte.
Os Reprodutores
A primeira etapa é a escolha
do casal. Se você já tem um casal, observe
atentamente o comportamento dos dois. Se eles combinarem,
mesmo no aquário comunitário já
mostram sinais de afinidade. Quando o casal é
adequado, não importa aonde seja colocado e com
quem viva que facilmente observaremos a afinidade entre
eles.
Se você partir para a compra,
com um pouco de atenção vai saber de cara
qual é o melhor peixe para reproduzir. Na loja
observe no macho uma coloração mais avermelhada
na parte inferior, nadadeiras bem evoluídas e
um porte robusto, de bom tamanho. Estas características
são de um macho que não é velho
nem jovem demais, um bom procriador. A fêmea precisa
ter o mesmo tamanho do macho e deve estar muito gorda,
se não for, procure em outra loja. Nunca tente
crias com uma fêmea de proporção
diferente do macho. Uma fêmea muito grande o macho
não consegue dominar, e uma menor corre o risco
de morrer devido a ferimentos causados pela insistência
do macho. Provavelmente esta ainda seja muito jovem.
O acasalamento
A reprodução é
muito simples. Coloque os dois no seu aquário
comunitário e passe o observar atentamente. Tenha
paciência e não fique com medo de ocorrer
uma desova e os outros comerem tudo. Espere o casal
mostrar interesse um pelo outro, observando que sempre
nadam juntos trocando "carinhos". Assim começa
o namoro. Quando o macho ficar com a coloração
avermelhada muito mais intensa, ou começar a
construir o ninho, é o momento certo. Agora estão
prontos para serem separados. Colocar primeiro no aquário
comunitário e esperar um pouco, causa muito menos
desgaste para os dois, visto que o momento certo pode
demorar meses para acontecer.
Monte um pequeno aquário de
uns 20 litros com pouca água, no máximo
15 cm de altura, menos que 10 litros de água.
Isto evita o desgaste causado pela perseguição
que sempre ocorre antes da desova. O aquário
deve ser montado sem cascalho, para evitar que os alevinos
aventureiros fiquem presos. Use a água do aquário
comunitário aproveitando para fazer uma troca
parcial. É importante usar esta água.
Cubra os vidros do aquário com cartolinas escuras,
deixando um lado para observação. Coloque
algumas plantas flutuantes como lentilhas d’água,
salvínias ou mudas flutuantes de samambaias.
O aquário deve estar em um lugar com pouca movimentação
de pessoas. Coloque o casal. Nesta fase tudo depende
da tranqüilidade do macho, se ele se sentir bem
começará a construir o ninho, que é
o mais provável. Esta construção
pode demorar alguns dias, depende muito do macho, uns
demoram mais que outros. A fêmea permanecerá
no outro canto do aquário e parece perder o interesse
por ele, e os dois se alimentam muito pouco.
Com o ninho pronto, o macho insiste
que a fêmea vá para baixo do ninho, beliscando
sua parte anterior. Ela não quer chegar perto
do ninho, então começa uma perseguição
pelo aquário. Nesta fase devemos ficar atentos
porque se ela não atender ao macho, ele vai ficar
insistindo e beliscando cada vez mais até causar
ferimentos que podem ser fatais. Geralmente o quarto
dia é o limite. Vá correndo na loja e
compre outra fêmea. Nesta altura do campeonato
é botar pra rachar! Se o macho não construir
o ninho neste prazo, troque-o também. O ninho
construído para uma fêmea que não
desovou, serve para outra fêmea. Se tudo der certo,
o acasalamento acontece com abraços fortes do
macho, veja a reprodução de Colisa lalia.
Quando começar a desova, não
saia da frente do aquário, preocupe-se com a
fêmea porque muitas vezes até mesmo no
momento do abraço ela devora os ovos. Se acontecer,
devemos então tira-la imediatamente. Com os dedos
faremos uma leve pressão na sua barriga, se a
desova for completa sentiremos que a barriga está
oca, apesar de inchada. Só faça este procedimento
com muita certeza. Se a fêmea não desovou
tudo pode acontecer que eles espirrem com um jato forte.
Deve ser feito somente quando a fêmea come os
ovos ou quando precisamos saber se a desova foi completa.
Fazer isto sempre em cima do ninho. A mão nunca
machuca o peixe, o que pode ocorrer é que ele
pule e caia, ferindo-se bastante. Podemos usar uma redinha
como auxílio. Terminada a desova tiramos a fêmea
e o macho é quem cuida da prole.
Nascimento
Em 24 horas os ovos começam
a eclodir. Quando os filhotes saírem do ninho
já devemos tirar o macho. Os filhotes começam
a nadar primeiro em espiral, meio desnorteados, depois
já conseguem se estabilizar rente a superfície,
nadando em linhas mais retas. Este é o momento
de tirar o macho, ele não se alimenta direito
e pode ficar muito fraco. Retire-o de preferência
com a mão, a redinha pode levar junto muitos
filhotes. Devolva-o para o aquário comunitário
onde já está a fêmea e a festa vai
começar novamente...
Uma desova pode tranqüilamente
passar de 1000 ovos. Não se preocupe com a alimentação
nos primeiros dias. Providencie uma lupa do tipo conta-fios,
usadas para ver negativos de fotografias. É facilmente
encontrado em lojas de material fotográfico.
Com a lupa observe a diminuição do saco
vitelino para saber a hora certa de começar a
alimentar, do terceiro ou quarto dia em diante. Use
alimentos líquidos próprios para alevinos
ovíparos, comprados no mercado, e infusórios
que eu explico mais adiante. O alimento líquido
deve ser colocado sempre conforme a bula que o acompanha,
nunca aumentar a quantidade para evitar que ocorra a
intoxicação causada pela fermentação
do alimento não consumido. Alimente conforme
a bula e com os infusórios no mínimo 3
vezes ao dia. Para facilitar a alimentação,
use somente uma lâmpada fraca em um canto do aquário,
eles vão todos para a luz.
Coloque no aquário alguns saches
com carvão ativado, feitos com filó, que
é o material usado nas redinhas, ou pegue aquele
véu de noiva velho... Pode usar também
um tecido muito poroso, mas nunca da marca "perflex"
porque em pouco tempo ele começa a se desmanchar
na água. A circulação da água
é muito importante, use uma pedra porosa controlando
para que saia somente um "fio" de ar no início,
e vá aumentando na medida que eles crescerem.
A circulação movimenta as pequenas partículas
de alimento, que sem a circulação decantariam
no fundo.
Na segunda semana comece a dar alimentos
secos e muito moídos. A ração granulada
para peixes grandes pode ser lixada até mesmo
com uma lixa unhas, obtendo-se um pó muito fino.
É importante que a comida flutue, pelo menos
um pouco antes de afundar, pois os alevinos nadam e
comem na superfície. Só procuram o alimento
no fundo quando já estão mais crescidos.
Observe com a lupa se o alimento está sendo aceito,
se não, tente outro. Observar com a lupa é
muito fácil. O peixinho tem o corpo transparente
onde podemos ver claramente o alimento dentro dele.
Com esta lupa, que possui uma base, o foco é
muito fácil através do vidro lateral,
e é maravilhoso vê-los crescer. Continue
dando também o alimento líquido e infusórios
até a terceira semana, diminuindo gradativamente
até chegarmos somente no alimento seco.
Use um pipeta para retirar o resto
de comida acumulado no fundo, os alevinos que morreram,
os ovos não eclodidos e todo sinal de fungo.
Use também algumas gotas de fungicida numa dose
bem inferior a bula do medicamento. Para complementar,
pode pingar na água algumas poucas gotas de vitamina
C e complexo B, comprados na farmácia.
Neste aquário, os alevinos ficam
até um mês, quando são retirados
com um coador de leite bem fino. Nunca tente usar redinhas
com tela flexível. Não se esqueça
dos procedimentos para evitar choques térmicos
e de pH. A partir da primeira semana, sifone o fundo
com uma mangueirinha de ar, baixando o nível
1cm. Repor a água com esta mangueirinha, lentamente
até chegar ao nível anterior e mais menos
de 1 cm. Fazer isto todos os dias usando a água
do aquário comunitário.
Preparando infusórios
Para criarmos infusórios existem
diversas receitas. Uma que funciona bem consiste em
deixar no sol cascas de vegetais como batatas, nabo,
cenouras, cascas de bananas ou folhas de alface até
ficarem secas. Alguns autores recomendam não
usar alface, a infusão de folhas de alface produz
uma cultura que contém fungos e parasitas. Depois
colocamos as folhas em um vidro de conservas e despejamos
um pouco de água fervente, como se estivesse
fazendo um chá, e completamos com água
fresca. Este preparo deve ficar no escuro de 2 a 3 dias
produzindo uma grande quantidade de bactérias,
tornando a água turva e pronta para receber os
microorganismos.
Pegamos a água que fica no pratinho
de um vaso de plantas sem adubos ou pesticidas, ou escorremos
um pouco de água pela terra do vaso. Esta água
certamente conterá uma grande quantidade de microorganismos,
principalmente o protozoário Paramecium, que
é o desejado, então colocamos na infusão
preparada. Colocamos todos os dias umas gotas de leite,
que causará a multiplicação das
bactérias, o alimento para os protozoários.
Em uma semana se forma uma camada espessa próxima
a superfície que contém milhões
de minúsculos microorganismos. O ideal é
preparar diversas infusões com intervalos de
alguns dias, assim teremos o fornecimento garantido.
Alimentamos os alevinos a partir do terceiro ou quarto
dia após a eclosão, diversas vezes ao
dia, com uma colherinha da infusão.
Tanque de crescimento
Providencie um tanque bem maior, que
já deve estar preparado no mínimo um mês
antes do início da desova. Se você dispor
de espaço use uma pequena caixa d’água.
Uma caixa de cimento-amianto de 500 litros sai mais
barato que um aquário de 50 litros, mas precisa
ser preparada pintando com um isolante acrílico
pelo lado de dentro, chama-se "suviflex".
Encha a caixa com água da torneira e deixe descansar
por uma semana, recebendo luz solar direta ou indiretamente.
Em seguida, coloque esterco de aves
na quantidade de dois copos de 300 ml para 500 litros
de água. Outros estercos, como de suínos,
também fazem o mesmo resultado. Este processo
chama-se adubação e é o grande
segredo dos criadores profissionais. O esterco precisa
estar seco, se for fresco vai ocorrer uma grande fermentação
e consequentemente a liberação de gases
tóxicos. O pH deve estar ligeiramente alcalino,
facilitando o desenvolvimento de microorganismos vegetais.
Pode-se misturar junto com o esterco um pouco de carbonato
de cálcio ou cal. Este processo de usar esterco
produz cyclops em grande quantidade.
Colocamos algumas plantas que podem
ser cabombas e elodeas soltas. Não use muitas
plantas, nem plantas flutuantes, que causarão
sombra na água diminuindo as algas verdes. Este
tipo de tanque não precisa de filtragem, bem
pelo contrário, a filtragem terminaria com o
plancton. Colocar os alevinos de 1 mês. Agora
podemos ficar descansados. Eles começarão
a crescer rapidamente, sendo pouco necessário
a alimentação. Mas não devemos
suspender a alimentação com os flocos
bem moídos. Quando a quantidade de cyclops diminuir,
podemos acrescentar um pouco mais de esterco, em quantidade
bem menor. A água precisa ter uma coloração
amarelada ou esverdeada, quando ficar muito cristalina
adube novamente.
O ideal é ficar na rua, não
há problema algum em receber chuva, somente devemos
cuidar para que não transborde. A luz solar é
ótima pois fitoplâncton, que é o
alimento para os cyclops, depende da luz para fazer
a fotossíntese e se multiplicar. Larvas e ovos
de mosquito são ótimos também,
aparecerão sozinhos e em quantidade. Não
precisa se preocupar com a dengue, onde tem peixe o
mosquito não evolui e na fase de larva já
é devorado. Na rua existe o perigo de predadores.
Aves como o bem-te-vi e insetos como as libélulas,
cujas larvas são muito vorazes. É muito
importante o controle da temperatura, 12º C é
fatal e baixando de 17º C eles param de se alimentar,
temperaturas muito comuns aqui no Sul, mas menos problemáticas
em outras partes do Brasil. Em meio ano já estão
bem crescidos, você terá muitos e poderá
dar de presente para os seus amigos, pois corre o risco
de não ter lugar para colocar tantos.
Eu desejo que este artigo sirva como
referência, não como via de regra. Em aquariofilia
tudo é relativo, principalmente quando tratamos
dos seres vivos que habitam nossos aquários.
Espero que seja a base para partir a algo mais.
Este é um texto de Ronaldo Hilgert, colaborador
da "Aquarismo Doce"
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