Samuel Mateus
O
Paracheirodon innesi (Tetra Neon) é
uma espécie de peixe ornamental muito popular,
que conhece uma larga aceitação e merece
os melhores comentários por parte dos aquariófilos.
Para isso muito contribui as cores alegres, a vivacidade
e o dinamismo e alegria que imprimem num aquário.
Todavia, é de lamentar que raros sejam os
artigos que descrevam as espécies de peixes
ornamentais em geral, e em particular os Néons.
Os artigos limitam-se a descrever algum fato curioso
observado. Falta ao mundo aquariófilo artigos
que relatem os comportamentos destes seres vivos com
o mesmo interesse, motivação e objetividade
que existem nos artigos sobre algumas espécies
de peixes de água salgada. Portugal tem proporcionalmente
uma boa quantidade de aquariófilos cuja experiência
deve ser aproveitada para o desenvolvimento desta
atividade tão enriquecedora. Aliás,
creio que um dos grandes fascínios de manter
este tipo de fauna, é o descobrir comportamentos
e atitudes que frequentemente encontramos na espécie
humana.
Este breve artigo propõem-se descrever o comportamento
dos Paracheirodon innesi.

Os Paracheirodon innesi (família
dos Caracídeos, gênero dos Tetras) são
peixes originários da região Amazônica
(principalmente Brasileira), América do Sul
que vivem em águas macias, ligeiramente ácidas
e pouco claras (a cor da água assemelha-se
a um amarelo esverdeado característica de alguns
chás). São peixes que não têm
problema algum em se alimentar à superfície
mas se atendermos à forma do corpo facilmente
concluímos que a sua alimentação
se processa nos níveis intermédios.
Nisso são exímios! Podem estar longe
mas mal um pedaço de comida vai caindo para
o fundo, logo aparece um Neons para ir comendo. Se
o pedaço foi grande, vai dando pequenas dentadas,
despedaçando aos poucos, dividindo e fraccionando
até conseguir comer todo o pedaço. Esta
espécie tem um grande vigor no que diz respeito
às questões alimentares: são
capazes de comer (tal como se come esparguete) larvas
de mosquito maiores que o comprimento do seu próprio
corpo. É óbvio que depois ficam empaturrados,
apresentando um proeminente abdômen, ficando
mais lentos e nadando ligeiramente inclinados (na
maioria dos casos) em pequenos impulsos.
A primeira coisa que reparamos a observar a espécie
é que são peixes gregários, isto
é, organizam a sua vida sob uma lógica
de conjunto, nomeadamente em cardume. Os Neons são
peixes que não aguentam muito tempo sozinhos,
precisam de outros peixes para se alimentarem, protegerem,
nadarem, etc.
Mas se é inegável que se organizam
em cardume, parece-me pouco acertado acreditar que
esse cardume forma um todo coerente e organizado.
Dito de outro modo, parece-me que existem particularidades,
singularidades no comportamentos de cada espécime,
de cada peixe em particular, que dão uma nova
perspectiva de olhar o cardume: este serve para o
Neon fundamentalmente se proteger ( tal como acontece
com as sardinhas em alto mar). Esta técnica
permite, para além de dissimulação,
confundir o predador, fazendo com que este não
saiba que peixe atacar, pois só percepciona
uma amálgama deles.
Quando se sente seguro, cada Tetra Neon tende a formar
pequenos grupos (2 a 4 indivíduos) e espalha-se
pelo aquário. Cada exemplar vive de forma individual,
explorando o aquário de forma singular. Alguns
exemplares têm mais tendência a ir para
a zona sombria das plantas, ao passo que outros praticamente
só deambulam nas zonas de maior luminosidade
(de referir que o meu aquário tem luz de baixa
intensidade, tal como os Neons gostam, já que
não tendo controlo sobre a abertura da íris
do “globo ocular”, não conseguem
suportar grandes luminosidade).
Por
outro lado, o Neon não “dorme”
(este termo não é rigoroso mas é
aquele que usualmente utilizamos) em cardume! Cada
espécime posiciona-se de forma arbitrária
pelo aquário, individualmente. Como estão
sós, ficam mais expostos a perigos. Para minorarem
as probabilidades se serem detectados durante a noite,
tende a descansar junto ao solo, numa posição
inclinada ( +/- 45º).
Esta imagem (Neons que vivem individualmente) é
contrastante como aquela com que o aquariófilo
se depara quando introduz no aquário alguns
Neons: neste caso, os Neons formam um cardume onde
existe um “batedor”, isto é, um
peixe que vai na frente dos resto do cardume, observando,
“apalpando” o terreno, sendo sua função
alertar o resto do cardume em caso de perigo. Nesta
situação a locomoção é
lenta, pelo que faz parecer que existe muito atrito
na água impedindo os peixes de se movimentarem.
Este cargo social de “batedor” não
é absoluto; é exercido por cada um dos
elementos do cardume, conforme a posição
que ocupe em relação ao resto dos companheiros.
O “batedor” de terreno também pode
ter outros encargos, como por exemplo, o de avisar
da existência de comida. A comunicação
é feita de forma extremamente simples e rudimentar:
dirigir-se ao local de comida. Como a estrutura social
dos Neons obdece à lógica de cardume,
todos estão muito atentos a cada elemento e
permanecem geralmente perto uns dos outros, existe
uma enorme facilidade de comunicação.
Por exemplo, no meu aquário, são os
inteligentes Escalares (Acará-Bandeira) a identificarem
a existência de comida (ou a sua possibilidade).
Quando os Escalares se deslocam à zona onde
habitualmente os alimento, de imediato, os Neons se
deslocam (em cardume) para essa zona. Os Tetra Neons
são, pois, peixes muito atentos e em certa
medida espertos. Apesar de não memorizarem
o lugar habitual onde os alimento, conseguem seguir
os Escalares porque sabem que aquele comportamento
dos Escalares significa comida.
Apesar
de ter referido que a organização em
cardume é apenas funcional e não estruturante
para a vida do Neons, não se pense que não
seja importante preservar esta forma de sociabilidade.
Existem alguns fenómenos que se prendem com
a sociabilidade do Neon e que ajuda a que este seja
reconhecido pelos outros elementos, permitindo deste
modo a sua integração. Não é
raro vê-los brincando à apanhada. É
frequente assistir-se a pequenas corridas que simulam
a mordidela na barbatana do companheiro. Aquele Neon
que for solicitado por esta prática, fica obrigado
a retribui-la tendo duas opções: ou
corre atrás da barbatana do peixes que acabou
de o solicitar, ou corre atrás de um outro
peixe ainda não solicitado, fazendo com que
este possa participar deste evento social. Assim,
o jogo desenrola-se numa base igualitária não
parecendo haver distinções ou estatutos
discriminatórios.
Em resumo, este artigo tentou chamar a atenção
para o aspecto singular e autónomo destes Tetras.
A forma de sociabilidade em cardume só vem
responder a necessidades funcionais de sobrevivência
(tal como o ser humano e muitas outras espécies
de animais). Esta espécie não é
apenas o peixinho engraçado e vivo, meio tolo,
de cores atractivas, mas um exemplo da complexidade
do mundo zoológico que também se manifesta
nestes pequenos animais. De referir que os comportamentos
descritos provavelmente só serão observados
se o aquário não estiver sobre-lotado
e apresentar as condições ideais para
o Paracheirodon innesi. Assim é que em aquários
das lojas de animais, dificilmente se registarão
estes comportamentos.
Uma última nota: o que aqui foi dito não
significa que nos vossos aquários se observem
estas atitudes. Volto a repetir que as condições
ideais e o facto de os peixes se sentirem seguros
são determinantes.
Esta espécie é riquíssima em
comportamentos sociais que implicam normas e funções.
Espero que tenha contribuído para esfumar um
pouco a perspectiva demasiado linear com que se viam
os Tetra Neons.
Este é um artigo produzido
por Samuel Mateus